radicaos
memórias em quatro acordes

Demo da Legião

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Para quem gosta de acontecimentos históricos e marcantes, aproveitamos para postar aqui uma das seis canções que integravam a primeira demo da Legião Urbana. Gravada no segundo semestre de 1983 no finado Estúdio Gravasom, no Brasília Rádio Center, Ainda é Cedo é um marco na história da banda.

Composta por Renato Russo, Iko Ouro-Preto e Marcelo Bonfá, a música ganharia as rádios FMs de todo o país em apenas dois anos, sendo regravada por Marina Lima em 1986. Naquela mesma época, o clássico já tinha registros em ensaios e era parte do repertório dos Paralamas do Sucesso, que tinham versão particular, mas também pulsante.

Nesta versão arrasadora, mostra-se o potencial da banda, que ainda não havia se aventurado antes por um estúdio profissional, vindo de apresentações esporádicas em pequenos palcos, mas já escaldada pelo show no Teatro da ABO, em abril de 1983.

Há quem considere esta versão definitiva! É o meu caso. Acho que a banda conseguiu um registro precioso, urgente e ao mesmo tempo autêntico, que se perdeu com a produção limpinha de José Emílio Rondeau durante a gravação do primeiro disco do grupo, o homônimo Legião Urbana.

Ah, tava esquecendo: esta é a gravação que fez sucesso na extinta Fluminense, a rádio maldita que foi fundamental para o rock brasileiro dos anos 80!

Divirtam-se!

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Paralamas e o rock de Brasília

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Nos anos 80, um trio carioca mudou os rumos da cena musical brasileira. A receita: polaróides urbanas, pop com pitadas de reggae e ska, uma cozinha poderosa e um bandleader antenado. Pois é. Os Paralamas do Sucesso têm aquele algo mágico e carismático. São fundamentais na história da música brasileira. Mas, claro, também do rock brasiliense.

Herbert Vianna é o midas que acreditou, em primeiro plano, na cena musical de Brasília. E contribuiu para o boom do rock candango. Sem ele, dificilmente o Brasil teria conhecimento das bandas da cidade na década de 80 que elevaram a cidade à condição de Capital do Rock. Sem ele, ninguém saberia de quem eram clássicos como Veraneio Vascaína, Ainda é Cedo e Química.
As pérolas de Renato Russo foram cantadas pioneiramente por Herbert Vianna ainda em 1982, quando nem ele nem Russo sonhavam em construir a história do pop nacional.

Quando deixou Brasília, por volta de 1977, nem sonhava que dentro de cinco anos estaria pilotando um dos mais sólidos grupos de rock brasileiro. Os Paralamas nasceram em 1981, no Rio de Janeiro, de uma vontade louca de Herbert Vianna e Bi Ribeiro fazerem um som como alguns amigos de Brasília já estavam aprontando.

Ambos eram muito próximos havia anos. Bi, filho de diplomata, e Herbert, de militar, eram produtos genuínos da Brasília dos anos 70. Andavam juntos pelas superquadras da Asa Sul como todo moleque crescido entre os pilotis dos blocos brasilienses. Aquela mistura curiosa de tédio e tesão, comuns a uma geração inteira que não tinha muito o que fazer na cidade e que rendeu alguns clássicos do rock brasileiro.

Nessa época, alguns amigos também circulavam na turma – Dinho Ouro Preto e Dado Villa Lobos. “O Renato Russo a gente conhecia meio de vista, um amigo em comum falava sobre ele, que era um cara muito estranho, que não saía de casa”, disse Herbert ao jornalista Antonio Carlos Miguel, há exatamente há 18 anos.

Foi Herbert quem mostrou a Renato a primeira guitarra elétrica. “Fui lá na casa dele, mostrar uma Fender que eu tinha ganho do meu pai”, comentou. Uma guitarra preta. Herbert tinha 15 anos. O pai, Hermano, havia trazido a Fender de uma viagem aos Estados Unidos. Para quem não sabe, nesta época, a paixão pela guitarra só tinha paralelo ao amor pelo skate. Herbert foi campeão de free style.

A saída de Brasília mudou radicalmente a vida de Herbert. Acostumado do paradoxal provincianismo da cidade, o paralama-mor chegou ao Rio em 1977 e ralou muito para se acostumar à vida na velha capital. “Estava começando a tocar guitarra, ficava em casa o dia inteiro”, conta. “Em 1978, o Bi veio e aí começou realmente a tocar”. Segundo o baixista, o som não tinha nada de punk. “Tocávamos Hendrix, Clapton, Santana... Tudo sem bateria. Na casa da minha avó. Só baixo e guitarra e um amplificador”, rememora Bi.

A entrada de João Barone ocorreu em 1982, substituindo Vital – o famoso personagem da clássica Vital e Sua Moto. A banda se reunia muito na casa da avó de Bi (Vovó Ondina) para ensaios cada vez mais elétricos e interessantes.

Nessa época algumas das boas canções do grupo começaram a ganhar forma. É o caso de Vital, Patrulha Noturna e Encruzilhada, ainda chamada Encruzilhada Agroindustrial. E outras obscuras que se perderam, sem que ganhassem um registro oficial, como Solidariedade, Não!, Verão, Rodei de Novo e Mandinga de Amor.

A paixão pela guitarra, além do esmero e do esforço com que Herbert se entregava ao instrumento, sempre lhe rendeu elogios. “Ele tira qualquer música na guitarra. Até os solos mais complicados de Jimi Hendrix”, elogiou Renato Russo. “Perto dele, a gente (da Legião) não sabe tocar nada”, confessou.

Em 1982, a banda entregava uma primeira fita demo ao fotógrafo e programador de rádio Maurício Valladares. Vital e Sua Moto subiu direto para o top 10 da Rádio Fluminense, cuja existência na década de 80 foi fundamental para a consolidação do rock brasileiro. A banda tornou-se conhecida de todos no Rio. A música, que hoje soa até ingênua, foi a mais tocada pela Flu no verão de 1983.

Enquanto isso, na sala de Justiça...

Ou melhor, na capital, a moçada já estava mandando ver. A Plebe Rude era a banda mais importante da cena local, depois do desaparecimento do Aborto Elétrico. A Legião Urbana ainda estava montando seu território, junto com o Capital Inicial. O triunvirato do rock brasiliense se antenou para o que veio do Rio.

Em maio de 1983, os Paralamas gravam o single com Vital e Patrulha Noturna. Os amigos de Brasília não acreditavam. “Pô, se eles podem porque nós não podemos?”, questionava-se, incrédulo, Dinho Ouro Preto. “Se nós, que somos uns merdas gravamos...”, emendou Bi, entre risos, durante a gravação de um documentário produzido pela Conspiração Filmes, filmado, entre outras locações, na velha Brasília.

Herbert, Bi e Barone já tinham incorporado ao repertório dos Paralamas algumas canções de Russo das quais gostavam muito: Ainda é Cedo, Química e Veraneio Vascaína. O guitarrista fazia questão de falar sempre da cena brasiliense, chamando a atenção de jornalistas do eixo Rio-São Paulo para o que rolava na cidade.

Em junho de 1983, Hermano, irmão de Herbert, escreve uma reportagem sobre o rock brasiliense na extinta revista Mixtura Moderna, editada por Ana Maria Bahiana e José Emílio Rondeau, primeiro produtor da Legião. “Até a época da gente vir para o Rio, as bandas de Brasília eram imitações do rock brasileiro dos anos 70, do final do Terço, dos Mutantes... Uma coisa sem tesão. Com o pessoal ligado aos punks a cena passou a ser superestimulante. A gente começou a tocar muito em função disso também”, disse Herbert.

Em uma conversa comigo, durante as gravações do último disco da Plebe Rude - Enquanto a Trégua Não Vem -, o guitarrista dos Paralamas recordou-se de algumas das bandas que fizeram os anos 70 candangos menos irritantes, ainda mais em função dos ditadores de plantão. “Tinha muita banda legal, mas a maioria era aquela coisa viajandona”, comentou. “Tinha aqueles shows na Escola Parque sempre lotados”.

Ainda em 1983, no segundo semestre, os Paralamas tocam no Rockway 2 - um festival organizado pela produtora brasiliense Artway no Ginásio de Esportes. Nunca tinham vindo à cidade para tocar, mesmo depois que haviam gravado o single. O show foi bem recebido pelo público, mas de maneira curiosa. Como o festival era por demais eclético, ninguém sabia bem o que aqueles três estavam fazendo. O disco ainda não havia saído. É verdade que boa parte do público estava muito mais interessado em ver o Roupa Nova e a Cor do Som. Também haviam alguns metaleiros que foram curtir Robertinho do Recife. Detalhe: uma estreante Cássia Eller também se apresentou nesse festival, acompanhando como vocalista o grupo Malas & Bagagens.

Apesar da aparente indulgência do público, Herbert, Bi & Barone, não estavam nem aí. “Porra, viemos tocar em Brasília”, disse Herbert, ainda no Hotel Carlton, no centro de Brasília. No palco, entre fios e cabos, Dado Villa Lobos circulava como roadie. Durante a tarde do dia do show, num sábado de setembro, Bi e João foram para a casa de Renato Russo, saber o que o líder da Legião estava aprontando. São recebidos, junto com Fê Lemos e a namorada, Pedro Ribeiro - irmão de Bi, hoje produtor dos Paralamas - além de alguns outros poucos amigos.

Renato vibrou com os relatos de Bi sobre as gravações do primeiro disco. “Muito bom... Muito bom...”, repetia o vocalista da Legião. No disco, há uma parceria de Renato com Herbert e Barone: a singela balada O que eu não disse, que conta com a guitarra de Lulu Santos. E outro registro de um clássico do Aborto Elétrico: Química. Bi: “Ficou muito legal, Renato. Você vai gostar”. Renato vibrava, em meio aos discos distribuídos no quarto.

Alguns meses antes, Herbert tinha vindo a Brasília e chegou a assistir a um dos ensaios da Plebe, que dividia uma sala no Brasília Rádio Center junto com o Capital, o XXX e a Legião. Philippe Seabra, vocalista e guitarrista da Plebe, recorda-se de um pequeno incidente, que quase lhe rende problemas com o futuro padrinho e produtor. “O cara chegou com um bermudão, de óculos... Ficou no canto da sala, tirando uns solos de Eric Clapton. ‘Que porra é essa?’, eu pensei. A gente nem chegou a se falar, eu acho”, relembra. “Na semana seguinte, eu fui ligar o meu pedal flanger, modelo MXR, que ligava numa tomada e era 110 volts, só que aqui em Brasília a voltagem é 220 volts. E o pedal não funcionou. Eu pensei: ‘Pô, alguém queimou o meu pedal. Merda. Tem três pessoas que usaram a sala de ensaio’. Perguntei: ‘Quem foi?’ O Ico (Ouro Preto, ex-guitarrista das bandas Aborto Elétrico e Legião Urbana)’ falou que tinha sido o Herbert. Eu fiquei puto”.

Segundo Philippe, a história lhe trouxe problemas alguns meses depois. “Quando a Plebe foi ao Rio para tocar pela primeira vez, eu já tinha dito ‘fala praquele cara que ele queimou meu pedal’. Descemos para fazer o show com Plebe, Legião e Paralamas. Show antológico no Circo Voador. Quando chegamos lá no Circo para fazer a passagem de som, o Herbert, que é um cara meio largo, chegou para mim: ‘Que papo é esse de dizer por aí que eu queimei o seu pedal? Que papo é esse?’ Eu falei: ‘Não, não. Foi o Ico, foi o Ico’ (risos). E o Herbert: ‘Tá bem, tá bem...’ A gente passou o som, tocamos A Minha Renda. Na famosa passagem ("Já sei o que fazer para ganhar muita grana, vou mudar meu nome para Herbert Vianna"), o Herbert abriu um sorrisão e viu que o pessoal de Brasília tinha caráter... Ficamos amigos. Depois, ele acabou sendo nosso padrinho na EMI e, bem, o resto é história”.

Em janeiro de 1984, os Paralamas subiaram no palco do Rock in Rio, o primeiro festival de porte a acontecer no Brasil. Estrelas internacionais, como Queen, Nina Hagen e outros, chegaram ao país para tocar a uma platéia sedenta. Os Paralamas foram ovacionados. Muitos ensaios renderam ao trio a segurança necessária para tocar para uma platéia repleta de milhares de roqueiros enlouquecidos. O trio não só deu conta do recado, como encantou o Brasil. O segundo disco – O Passo do Lui - já havia saído. Óculos, o primeiro grande hit do grupo, estava estouradaça. “Mais do que a letra, a música era a época”, relatou Herbert, em 1991. Dali para a frente, o céu – e o mercado latino – eram o limite. “O Rock in Rio Foi a nossa consagração”, comentou Herbert, em entrevista concedida em 1994.

Em 1986, enquanto o país assistia indignado à degradação que havia chegado ao país com o mal-fadado Plano Cruzado, os Paralamas lançam Selvagem?, disco que tinha na capa o velho chapa Pedro Ribeiro e que trazia uma espécie de radiografia sócio-política do Brasil. O governo Sarney patinava, o Cruzado fazia água e ninguém sabia para onde a nação seguia. Herbert parecia seguro, ao cantar: "Alagados, Trenchtown/ Favela da Maré/ A esperança não vem..." O LP vendeu de 528 mil cópias. "Era o nosso recado", disse Herbert.

O resto é história.

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Legião Urbana: O petróleo do futuro

domingo, 9 de setembro de 2007

Em janeiro de 1985, chegava às lojas de todo o país o disco Legião Urbana. Os acordes de Será começariam a tocar, ainda que timidamente, nas rádios brasileiras só dali a alguns meses. Ainda naquele mesmo mês, o país assistiria à primeira superprodução de rock em terras tupiniquins, com artistas internacionais desembarcando nos palcos do Rock in Rio. Janeiro seria marcado também pela vitória de Tancredo Neves, candidato do PMDB à Presidência da República, no colégio eleitoral, impondo uma derrota ao candidato da ditadura, Paulo Maluf, no dia 15 de janeiro.

Ninguém poderia imaginar que naquele mês nascia, nos estertores da ditadura militar e no renascimento da democracia brasileira, uma face do país até então desconhecida para a opinião pública: a juventude brasileira pós-64 pensava! E tinha voz própria.

Gravado entre outubro e dezembro de 1984, o disco chegaria às lojas com o início do processo de redemocratização do Brasil e o nascimento da Nova República. "A gente tem esperança que as coisas vão melhorar. É daqui de Brasília que vai surgir a garotada nova, com idéias novas, não só na música, mas no campo das artes em geral", previa Renato Russo. "Para o futuro, planejamos muita música, muitos agitos, muito trabalho e tudo de bom".

Os jovens de Brasília – o fenômeno da arquitetura nacional planejada em 57, filha bastarda do gênio de Oscar Niemeyer e dos sonhos visionários e populistas de Juscelino Kubitschek – ousavam mostrar que eram capazes de produzir música com um discurso articulado. Pela poesia contundente, esboçavam o que queriam e deixavam claro que tinham uma posição. “Depois de vinte anos na escola / Não é difícil aprender / Todas as manhas do seu jogo sujo / Não é assim que tem que ser / Vamos fazer nosso dever de casa / E aí então, vocês vão ver / Suas crianças derrubando reis / Fazer comédia no cinema com as suas leis”, cantava Renato em Geração Coca Cola. Nas demais canções do disco, os sentimentos apontavam rumos e indignações.

O disco trazia a urgência de uma moçada ansiosa, reflexiva e inquieta, que estava submetida a 20 anos de ditadura sem poder se expressar. Quem cresceu em Brasília nos anos 70 sabe que se a ditadura impunha sua vontade à força, era na capital da República que o braço do Exército era sentido quase que imediatamente. Em 1977, o Exército ocupou a Universidade de Brasília (UnB) por conta dos protestos estudantis. Ora, os militares não aceitavam que moleques abrissem as bocas para reclamar justamente no quintal do Palácio do Planalto. Daí porque a percepção política é tão presente na temática das bandas brasilienses da década de 80. As letras da Plebe Rude, da Legião Urbana e, pouco menos, do Capital Inicial, sempre continham uma insatisfação com o estado geral das coisas.

O primeiro disco da Legião reflete muito essa época. A poesia de Renato mirava os militares, como em Geração Coca Cola. Mas também os costumes sociais, como em A Dança, uma crítica à juventude burguesa brasiliense. Também havia a própria inquietude juvenil presente, como em O Reggae. Além de paixões, como Ainda É Cedo. E sexo, em Teorema.

Um romantismo e uma pureza juvenil, com muita veracidade e eloqüência, estão presentes em todas as faixas, que remetem à Brasília e sua juventude. As referências sonoras também são muitas e mostravam que a banda estava antenada com o que fora produzido na Inglaterra dos anos 70, como o punk dos Sex Pistols, mas também no que estava rolando naquela época na terra da rainha, com o pós-punk de Comsat Angels, U2 e Joy Division.

Anti-marketing

Quando a EMI lançou o disco Legião Urbana, com produção do jornalista José Emílio Rondeau, foi sem muito estardalhaço ou estratégia de marketing. Não se sabe a que propósito, o lançamento teria sido mesmo um tiro no pé, seguido os manuais de propaganda atuais. Afinal, o disco veio à luz bem no meio do Rock In Rio. E a banda, como se sabe, não estava naqueles palcos, que levaram à aclamação, contudo, de uma banda irmã da Legião: os Paralamas do Sucesso. O grupo carioca-brasiliense foi quem abriu as portas da gravadora para a Legião. Herbert, Bi e Barone tinham gravado dois anos antes duas músicas de Renato Russo no primeiro LP, Cinema Mudo, chamadas Química e O que eu não disse.

O fato de a banda ter apostado numa major para lançar seu primeiro álbum não desagradava Renato Russo. “É a única maneira de ver o seu produto bem divulgado, já que a produção independente, além de muito cara, atinge só a um público de elite", definiu, ainda na época, em uma entrevista concedida à jornalista Wilma Lopes, do Jornal de Brasília. "Há o lado negativo, mas este é contrabalançado pelas vantagens do lado positivo, que é bem maior. Com jeito, se faz muita coisa. Conseguimos fazer o disco como queríamos, desde a escolha da música até a capa e o encarte".

Ao longo daquele ano, as músicas da Legião foram ganhando as rádios uma a uma. O disco quase todo virou uma seleção de hits, que se sucediam nas rádios. Até hoje o CD está no catálogo da EMI e vende muito bem. Soma mais de um milhão o número de cópias vendidas em mais de duas décadas.

Muito mais do que um fenômeno musical no mercado fonográfico brasileiro durante esses últimos 20 anos, a música feita em Brasília no início dos anos 80 é o retrato perfeito de uma época em que valores éticos e morais eram incipientes e o grito de consciência emergiria naquele país ainda tão profundamente ansioso por construir seu futuro. Renato Russo era o rosto mais visível do que seria conhecido dali para frente como o Rock Brasília.

O disco Legião Urbana mudou o rock brasileiro e, mesmo esse tempo todo depois de ter sido lançado, ainda mantém frescor e jovialidade invejáveis. Estranho fenômeno musical, que chegou a surpreender a mídia e os cartolas do mercado fonográfico nacional, o rock feito em Brasília era diferente do resto feito no país. O disco é hoje um clássico e talvez seja uma das melhores estréias de uma banda brasileira de todos os tempos.

A Legião abriu as portas para o rock brasiliense, firmou-se como opção estética, rendeu frutos e filhotes nos anos 90 – Raimundos, Little Quail and The Mad Birds, Pravda e Maskavo Roots – e agora, vinte anos depois, com Prot(o), Beto Só, Phonopop e Bois de Gerião.

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Temporada de Rock - 1983

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Noite do dia 15 de abril de 1983. L2 Sul. Quadra 616. Quase meia noite. Cerca de 50 pessoas aguardam a abertura da porta do Auditório da Associação Brasileira de Odontologia. Alguns garotos com roupas rasgadas e meninas de visual diferente olham com cara blasé os cabeludos tradicionais. Começava ali a ganhar corpo o rock brasiliense da década de 80 que iria sacudir o país dois anos depois. Era a Temporada de Rock, a primeira iniciativa conjunta de cinco grupos seminais da cidade: Banda 69, Plebe Rude, Legião Urbana, XXX e Capital Inicial.

Durante três finais de semana, a sortuda molecada que botou os pés na ABO teve a oportunidade de presenciar o nascimento de lendas do rock nacional. Foi neste pequeno palco que Dado Villa Lobos estreou na Legião Urbana. E que Dinho Ouro Preto ganhou confiança para cantar, embora não tenha participado do show. Ficou na mesa de som, assistindo à performance de sua futura banda, que tinha como vocalista a gostosa Heloísa, estudante de arquitetura da UnB e amiga dos irmãos Lemos. O espetáculo foi produzido pela Candango Produções Artísticas. Um evento de fôlego, começando no dia 15 e terminando no dia 30. Pode parecer incrível, mas a cada noite, não mais que cem pessoas foram assistir aos shows.

A abertura do dia 15 ficou por conta da Banda 69, formada por Marcelo Carvalho, Murilo Carvalho, Rodrigo Lopes e Militão Ricardo. Os quatro se conheceram no Colégio Dom Bosco, durante um festival de música. Dividiam a fissura pelos Beatles e logo tomaram coragem para montar a própria banda. O grupo estreou na Expoarte 81, realizada na Universidade de Brasília. E, ainda naquele mesmo, ano dividiu o palco com a lendária Aborto Elétrico, durante um show realizado em Goiânia. "Foi o pessoal do Aborto quem abriu o caminho para nós e outros grupos", reconheceria o próprio Murilo.

"Este é o primeiro show que a gente faz com uma produção bem cuidada", anunciava o guitarrista da 69, em entrevista a Irlam Rocha Lima, do Correio Braziliense. "A gente vem trabalhando em cima de tudo. Com a ajuda do poeta Nicolas Behr, criamos um cenário, que tem ao fundo um muro pichado. Com a ajuda de dois estudantes de Comunicação da UnB, produzimos um filme de 25 minutos de duração, que é uma espécie de história do grupo. Esse filminho será exibido". No repertório do quarteto, clássicos do grupo: Maria Gasolina, Precisa-se e Doido Varrido, além de covers dos eternos Beatles.

A apresentação levantou a carreira da Banda 69, que passaria a ser uma das mais atuantes bandas da cidade. Logo o grupo estaria dividindo a atenção de crítica e público, tentando cruzar o Brasil três anos depois com um disco lançado pela CBS e que teria a participação de Herbert Vianna em uma faixa. A produção da bolacha ficou a cargo do miquinho Léo Jaime.

Ao lado da 69, quatro promessas de revolução estética ousariam trazer a palavra punk para o entediado cotidiano candango. "Fomos ensinados a consumir o que vem de fora e se hoje somos o que somos, não é culpa nossa", resumia um ingênuo e juvenil Renato Russo ao atento Irlam, que não teve dúvidas: tascou o movimento em reportagem publicada pelo Correio no dia 22 de abril, sob o título "Os punks também estão chegando. Eles vão abrir a Temporada de Rock".

No texto escrito por Irlam, Renato mandava ver, traçando um panorama do que passava pela cabeça da molecada que estava por vir a atacar o país de maneira visceral: "Toda a nossa geração aprendeu a gostar de Beatles, Stones, filmes americanos e coca-cola. Além disso, quando a gente começou a curtir música brasileira, Caetano Veloso estava exilado em Londres e Gal Costa cantava em inglês ‘Oh my eyes, we're looking for flying saucers in the sky...’, e tudo que era nacional e dirigido aos jovens era modelo importado".

Renato vinha do Aborto Elétrico e acabara de formar a Legião ao lado de Marcelo Bonfá. O duo tinha como parceiros de jornada os amigos Eduardo Paraná, guitarrista egresso do grupo Boca Seca, e o tecladista Paulo Paulista. Em dezembro de 1982, com essa formação, a Legião abriu o show para a carioca Blitz (Você não soube me amar era hit em 1982), no Clube dos Servidores. Os dois amigos saíram pouco tempo depois, dando lugar a Ico Ouro Preto, irmão de Dinho, que amarelou e não consigou segurar a onda. Tinha pânico de palco. Dado entrou faltando duas semanas para o show da ABO. Uma estréia promissora.



O show da Legião foi o marco. Para mim, que assisti à apresentação meio sem entender nada, ao lado de um amigo cabeludo, foi um choque. Renato tinha empatia instantânea com o público e dominava a cena sem problemas. Logo de cara, a guitarra de Dado deu pane, e Renato nem teve dúvidas. Improvisou com o público, atacando um mantra maluco, a quem ele sempre recorria, desde os tempos do Aborto, chamado Adhan. Consistia num rock quatro por quatro, básico, em que o público gritava "adhan", progressivamente, sob o comando do carismático líder da Legião. A íntegra deste show da banda de Russo você encontra aqui.

Apesar de ser a Legião, a banda mais importante a subir no palco da ABO era, na verdade, a Plebe Rude. O grupo surgira dois anos antes, quando André Müeller largara Os Metralhaz para juntar-se a Philippe Seabra, líder do finado Caos Construtivo. Os dois formaram a banda com Gutje, ex-Blitx 64. Segundo a lenda, repetida pelo baterista na conversa com Irlam, o vocalista Ameba foi convocado numa festa. "Ele estava bêbado, com um copo de gim na mão e cantando", registrou o repórter do Correio. "Marginalizados porque são roqueiros e ainda mais porque curtem o lance do punk, o pessoal da Plebe Rude está indo à luta. Agora cheio de esperança, com a descoberta do rock pelo mercado de disco no Brasil".

Ao lado das duas bandas irmãs, estavam o Capital Inicial e o XXX. Os dois grupos mal começavam a andar com as próprias pernas. A banda nova dos co-fundadores do Aborto, os irmãos Fê e Flávio Lemos, tinha estreado pouco tempo antes, numa festa promovida no ateliê do Departamento de Arquitetura da UnB. Enquanto o XXX era o embrião da Escola de Escândalos, ainda sem a guitarra endiabrada de Fejão e a batida correta de Balé. No lugar dos dois, atuavam Jeová Stemler e Alessandro. O grupo tinha recém feito uma apresentação no Brasília Urgente, programa da extinta TV Brasília.

Aqui, cabe uma curiosidade. Um texto escrito pelo próprio Renato para ser distribuído aos fãs, antes da apresentação, mas - sabe-se lá por quais circunstâncias, não há qualquer menção à Banda 69.

Eis a íntegra:
"Os componentes dos quatro conjuntos fazem parte do que era conhecido como "a turma da colina da UnB", isso por volta de 1977, época da abertura e da redemocratização (embora a UnB ainda apresentasse alguns problemas). Um maço do Hollywood estava por volta de Cr$ 15,00 e, na cidade, não existia nada para se fazer. Mas aparece então o que iria acabar de vez com a pouca identidade que a capital tinha com a música discoteca.

Brasília deixa de ser Brasília e passa a ser Rio de Janeiro, como o País inteiro. Para quem gostava de rock, esse foi o fim. Basta ser chamado de colonizado o tempo todo; com a moda disco a situação piora sensivelmente. Ainda mais porque na mesma época aparece um movimento original e anárquico que pretende acabar com os falsos modismos. É a moda levada ao extremo: antimoda, antiestética, antitudo.

Mas aqui é bem mais fácil controlar a juventude oferecendo a válvula de escape ideal e não uma música que faça todos pensarem e questionarem as hipocrisias construtivas de uma sociedade falsa, à beira da autodestruição atômica. Ha-ha. Música discoteca não fala desse feito. E a música popular brasileira parece estar mais preocupada com cama e mesa e a sensação das cordilheiras.

E o pessoal que faz letras espertas não gosta de tocar rock no Brasil. O que fazer? Será que estão todos satisfeitos? Rock é uma atitude, não é moda. É música da África. Não é música americana. Tem no mundo inteiro.

As apresentações tornaram-se lendárias. Nem tanto pelo som, mas pelo que todas essas bandas se transformariam anos depois.



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